“Não é este o filho do carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José e Simão? E não convivem conosco suas irmãs? E ficaram escandalizados por causa dele” (Mc 6.3).
“Quando os familiares de Jesus tomaram conhecimento do que estava acontecendo, partiram para forçá-lo a voltar, pois comentavam: ‘Ele perdeu o juízo!’. Mas, os mestres da Lei, que haviam descido de Jerusalém exclamavam: ‘Ele está possuído por Belzebu!’ e mais: ‘É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios” (Mc 3.21-22).
O que as pessoas pensam de mim? O que meus familiares cogitam ao meu respeito? O que os ‘mestres’ da vida acham de mim? No terceiro capítulo do evangelho de Marcos, Jesus se depara com o prenúncio de uma das maiores rejeições de sua existência como ser humano encarnado: ser escândalo e ‘esquisito’ aos olhos daqueles que o viram crescer. A família!
Esta é uma etapa na vida de Cristo durante a qual pessoas totalmente capazes de apreciar sua sabedoria, habilidades e poder, o rejeitaram veementemente. Indivíduos em posição privilegiada, como que assistindo de camarote ao mais fenomenal evento da história humana e celestial, desaprovaram e perseguiram contundentemente o Messias. Ah, o ser humano, sempre confundindo essência com aparência.
O fato é que para tornar o evangelho mais ‘bonitinho’ costumamos passar por cima deste desagradável episódio, pois é muito estranho imaginar os patrícios terrenos do Senhor deslocando-se cerca de 50 km a fim de tentar forçar a volta de Jesus às madeiras da oficina de carpintaria. Apesar de sempre buscarmos conservar nosso pudor ao falar dos evangelhos, o texto de Marcos é extremamente explícito ao utilizar a expressão ‘forçar a voltar’. Vejamos, qualquer atitude executada mediante constrangimento físico ou emocional gera desconfortos e atritos consideráveis, fundamentalmente quando a intenção pressupõe a ‘volta’ ou o ‘retrocesso’. Uma vez que tal proposta possui um caráter abortivo e visa matar o avanço dos sonhos e aspirações veladas durante anos por alguém.
Se, porventura, pudéssemos encontrar os familiares do Mestre envolvidos nesta tentativa desastrosa, eles talvez nos diriam: ‘Você não entende, tem alguma coisa errada com esse rapaz, ele não é o que Deus o tornou, ele é um mero carpinteiro. Todo esse alvoroço não passa de uma farta loucura de sua parte e daqueles que o cercam’. No entanto, a questão que me vem a mente quando medito neste acontecimento é a seguinte: Deus não havia revelado aos familiares de Cristo o caráter excepcional do rebento da jovem Maria? Muitíssimas promessas e confirmações divinas recaiam sobre os ombros do Filho de Deus desde muito cedo. Contudo, seus companheiros de brincadeiras infantis viram o tempo passar e esqueceram das evidências presentes na identidade do jovem Cristo, cheia de graça e de verdade, e se apegaram ao que podiam enxergar com seus olhos naturais: a carpintaria. Ecoavam afirmações como: ‘Jesus, rapaz, você perdeu o juízo, não és profeta! E sim um carpinteiro!’; ‘você não é um mestre (rabi), não passas de um artesão!’; ‘Seu futuro não é tão glorioso assim, na verdade, seu destino é ser como nós, um medíocre interiorano satisfeito em mexer com madeira’; ‘Você não faz o tipo grande pregador, os fariseus e escribas sim, possuem diplomas, títulos, são bem nascidos, nunca calejaram as mãos em uma oficina com você’.
É importante deixar bem claro que o problema aqui não é o fato de que ser carpinteiro ou residir no interior são situações indignas, tanto que Jesus as experimentou durante anos. Entretanto, dentro deste contexto, Cristo estava sendo coagido a caminhar para uma condição retrógrada, a qual era representada pela carpintaria dos arredores da Galileia. Além disso, este quadro também nos oferece um vislumbre adicional. A matéria-prima do carpinteiro é a madeira, objeto utilizado nas Escrituras, como símbolo daquilo que é humano, terreno e passageiro.
Tanto é assim que, em I Co 3.12, o apóstolo nos convida a edificar sobre o fundamento de Cristo uma obra que não seja ‘madeira, feno e palha’, pois tais materiais, apesar de parecerem volumosos são rapidamente queimados pelo fogo e não permanecem. Da mesma forma no relato do Pentateuco, na ocasião da instrução relacionada a confecção dos utensílios do templo, a madeira deveria ser usada revestida com o mais puro ouro, simbolizando metaforicamente, a humanidade em simbiose com a divindade, sendo aquela envolvida por esta. Em fim, o ouro nas escrituras representa a imagem daquilo que é precioso, duradouro e reluzente. Aponta para o divino. O próprio Jesus, enquanto criança, recebeu como oferta profética dos magos orientais “ouro, incenso e mirra” (Mt 2.11). Ali estava o bebe deitado na madeira da manjedoura surrada por animais sendo cercado de divindade e adoração. Era lhe proposto uma obra que marcasse terra e céu. Um ser humano que fosse capaz de se envolver completamente com o “ouro” do céu a fim de redimir a todos. Para que isso acontecesse o retrocesso precisava retroceder.
Deus faz tudo perfeito. Tem sempre o melhor para aqueles que o buscam e jamais nos conduzira ao retrocesso, bem como, possui planos mais altos do que a ‘madeira’ medíocre que os homens preparam para nós. É preciso coragem para romper com o que pensam a nosso respeito ou com o que visualizamos no nosso passado. É mais simples voltar. É mais confortável desistir. É menos doloroso voltar para a madeira da carpintaria e não avançar para o ‘Madeiro’, a cruz. O objetivo do Messias era o madeiro. O lugar que produziu a mais gloriosa vitória vista nos últimos vinte e um séculos. A obra no “Madeiro” é “ouro”!
Satanás, sempre nos dirá que nosso futuro está em regredir. Ele é mestre em amedrontar, manipular e enfraquecer os verdadeiros profetas de Deus, e frequentemente usará a voz de pessoas próximas de nós para nos induzir de ‘volta’ a ‘madeira’, ao passado, ao comodismo de não ter novos desafios, ao retrocesso de deixar os planos divinos e retornarmos ao humano e perecível. Tais vozes também ecoarão nos lábios de figuras de autoridades que cruzam nosso caminho, assim como os mestres da Lei que insinuaram o endemoninhamento de Jesus.
Não dá para calcular o que é pior, ser chamado de ‘doido’ por parentes próximos ou ser considerado, diagnosticamente, possuído por ‘Baal-zebube’, o ‘Senhor da Moscas’, por aqueles que dentro do contexto religioso da época, detinham a suposta autoridade de afirmar se alguém era usado por Deus ou pelo inimigo, afinal eram magistrais da sinagoga e do Templo do Senhor.
Diante da sociedade, quanto peso possui a palavra de um especialista? Ou diante do seio familiar quanto vale a opinião de parentes mais velhos? Realmente, tais declarações ganharam mais impacto por causa de quem as diziam. A verdade, é que por diversas vezes pessoas nos pedirão ou nos perseguirão para que desistamos dos propósitos divinos. E estes atitudes podem vir daqueles que estão em posição de autoridade ou de intimidade. No entanto, nunca podemos negociar os propósitos que Deus fez germinar nos nossos corações por causa da opinião dos que nos ‘forçam a voltar’.
Cristo ouvia o Pai no lugar das vozes abortivas que o assediava. Quanto vale a palavra do “Pai nosso que está no céu”? Deus, preventivamente, já havia decretado sobre os céus de sua cabeça a palavra profética que iria guiá-lo por todo seu ministério: “Este é o meu filho amado em que me comprazo” (Mc 1.11). Portanto, mesmo que todos tomassem cordas, amarrasse e levasse Jesus Cristo a retroceder ao bairro de sua infância, tais amarras humano-diabólicas se romperiam instantaneamente mediante o poder que as palavras do Pai, bem agasalhadas no seu interior, possuíam quando o assunto era identidade e propósito de vida.
A confortável, porem pífia ‘madeira’ já ficou pra trás e o desconfortável, porém glorioso ‘Madeiro’ nos está proposto. Corramos sem que ninguém nos detenha, seguindo o exemplo do ‘carpinteiro de ouro’. Jesus!
“Todavia, o meu justo viverá pela fé, e: se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hb 10.38-39).
Pr. David Riker
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Aprendi mucho
Faço ousadamente minha a pergunta que intitula o artigo: “Quem?” E aceito o exemplo do Senhor.
necessario verificar:)
Achei tremenda esta mensagem. É legal termos a certeza de que o “Madeiro” traz glória, traz vida.